Muitas crianças ao chegarem ao 1º
ano do ensino fundamental apresentam dificuldades de aprendizagem relacionadas
à escrita. É possível que estas crianças não tenham tido oportunidades
significativas de interação na educação infantil, fase na qual se desenvolve a
função simbólica e consequentemente os sistemas de representação, fato que pode
ter prejudicado o desenvolvimento da criança. Em situações como esta, é
perceptível a importância do trabalho na educação infantil que priorize e
preserve os momentos lúdicos e prazerosos, que certamente contribuirão para o
desenvolvimento do desenho infantil.
Ao final do seu primeiro ano de
vida, que compreende o estágio sensório-motor, descrito por Piaget (1948), a
criança é capaz de manter ritmos regulares e produzir seus primeiros traços
gráficos. O desenvolvimento progressivo do desenho implica mudanças
significativas que, no início, dizem respeito à passagem dos rabiscos iniciais
da garatuja para construções cada vez mais ordenadas, fazendo surgir os primeiros
símbolos. De acordo com o mesmo autor, a função semiótica é a capacidade que a
criança tem de representar objetos ou situações que estão fora do seu campo
visual por meio de imagens mentais, de desenhos, da linguagem. A criança passa
a desenvolver essa função no estágio pré-operatório, que compreende faixa
etária de dois a sete anos.
A cada representação que a
criança faz, o jogo simbólico e o desenho passam a ser uma necessidade, e é
assim que elas vão se inserindo no processo de alfabetização, desde o estágio
pré-operatório, onde se inicia o processo de representação, interagindo com a
escrita como se a mesma fosse um jogo que contêm regras e, contém também o
imaginário. Dessa forma a escrita deixa de ser uma representação mental e passa
a ser uma representação gráfica, carregada de sentidos, assim como o desenho
que, primeiro passa pelo plano da representação mental e só depois a criança
passa a representá-lo graficamente. Assim o desenho infantil pode ser
considerado precursor da escrita, estando diretamente relacionado ao processo
de alfabetização.
Piaget classifica as fases do desenho como:
Garatuja:
Faz parte da fase sensório motora (0 a 2 anos) e parte da fase pré-operatória
(2 a 7 anos). A criança demonstra extremo prazer nesta fase. A figura humana é
inexistente ou pode aparecer da maneira imaginária. A cor tem um papel
secundário, aparecendo o interesse pelo contraste, mas não há intenção
consciente. A fase da garatuja pode ser dividida em outras duas partes:
- Desordenada: movimentos
amplos e desordenados. Com relação a expressão, vemos a imitação "eu
imito, porém não represento". Ainda é um exercício, simples riscos
ainda desprovidos de controle motor, a criança ignora os limites do papel
e mexa todo o corpo para desenhar, avançando os traçados pelas paredes e
chão. As primeiras garatujas são linhas longitudinais que, com o tempo,
vão se tornando circulares e, por fim, se fecham em formas independentes,
que ficam soltas na página. No final dessa fase, é possível que surjam os
primeiros indícios de figuras humanas, como cabeças com olhos.
- Ordenada:
movimentos longitudinais e circulares; coordenação viso-motora. A figura humana
pode aparecer de maneira imaginária, pois aqui existe a exploração do traçado;
interesse pelas formas.
Nessa fase inicia-se o jogo simbólico: "eu represento sozinho".
Ocorre a mudança de movimentos; formas irreconhecíveis com significado; atribui
nomes, conta histórias. A figura humana pode aparecer de maneira imaginária,
aparecem sóis, radiais e mandalas. Dentro da fase pré-operatória, aparece a
descoberta da relação entre desenho, pensamento e realidade. Quanto ao espaço,
os desenhos são dispersos inicialmente. Então aparecem as primeiras relações
espaciais, surgindo devido à vínculos emocionais. Quanto a utilização das
cores, pode usar, mas não há relação ainda com a realidade, dependerá do
interesse emocional. Ela também respeita melhor os limites do papel. Mas o
grande salto é ser capaz de desenhar um ser humano reconhecível, com pernas,
braços, pescoço e tronco.
De acordo com Piaget (1948), no estágio
pré-esquemático, que inicia-se por volta dos quatro anos e se estende até os
sete anos. Após esta fase a criança com idade entre sete e nove anos entra no
estágio esquemático, e após os nove anos passa para o estágio do realismo
nascente.
Vale ressaltar que estes estágios compreendidos
entre os sete e onze anos estão dentro do período das operações concretas.
Estes estágios não são estáticos, imutáveis, existem crianças que pulam alguns
estágios de desenvolvimento e crianças que param de se desenvolver devido a
vários fatores que influenciam em sua vida, como deficiências física ou mental,
como família, situação social e econômica ou distúrbios psicológicos.
O desenho como possibilidade de
brincar, o desenho como possibilidade de falar de registrar, marca o
desenvolvimento da infância, porém em cada estágio, o desenho assume um caráter
próprio. Estes estágios definem maneiras de desenhar que são bastante similares
em todas as crianças, apesar das diferenças individuais de temperamento e
sensibilidade. Esta maneira de desenhar própria de cada idade varia, inclusive,
muito pouco de cultura para cultura.